Qual a explicação para essa natureza em fúria, para essa destruição que se repete todos os anos? O Fantástico ouve especialistas para entender claramente o que aconteceu na Região Serrana do Rio de Janeiro.
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Região Serrana do Rio, 1981. “Tem gente morta demais lá”, reclamou um morador na época. “Será que não se pode prever? Fazer alguma coisa pra evitar isso?”, disse um atingido pelas chuvas.
Região Serrana do Rio, janeiro de 2011. Trinta anos depois, as perguntas são iguais. Por que tragédias como esta acontecem? Por que não se consegue prevenir tantos danos? Será culpa do clima? Está chovendo mais?
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Região Serrana do Rio, 1981. “Tem gente morta demais lá”, reclamou um morador na época. “Será que não se pode prever? Fazer alguma coisa pra evitar isso?”, disse um atingido pelas chuvas.
Região Serrana do Rio, janeiro de 2011. Trinta anos depois, as perguntas são iguais. Por que tragédias como esta acontecem? Por que não se consegue prevenir tantos danos? Será culpa do clima? Está chovendo mais?
Não é o que diz a meteorologia: “As chuvas tão dentro, se a gente olhar o comportamento dentro do mês, elas tão dentro do normal, dentro da média para o período de janeiro”, explica Olívio Bahia, meteorologista do Inpe.
De acordo com o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), as tempestades que castigaram a região de Teresópolis, Nova Friburgo e Petrópolis fazem parte de um fenômeno que acontece todos os verões. É a chamada zona de convergência do Atlântico Sul. A zona de convergência carrega um corredor de umidade desde o sul da Amazônia até o Sudeste, onde as áreas montanhosas favorecem os temporais.
“A Região Serrana, ela tem a característica de fazer com que o ar que está mais embaixo suba pelas suas paredes, com isso as nuvens se desenvolvem provocando ainda mais chuva”, explica o meteorologista.
Uma chuva intensa, contínua, com força suficiente para varrer a fina camada de terra que cobre as rochas das montanhas e transformar simples riachos em cabeças d'água devastadoras. O repórter Álvaro Pereira Júnior foi ao laboratório de geologia da Universidade de São Paulo para ver como a ciência explica o que aconteceu.
O geólogo do laboratório de sedimentologia da USP, Vinícius Mendes, fez uma simulação do que seria um terreno de encosta, em uma região de serras como no Rio de Janeiro. A rocha foi simulada por uma placa de vidro na maquete e, acima dela, foi colocada uma camada de solo.
Para simulação ser a mais real possível, esta não é uma terra qualquer. “É um solo comum de se encontrar nessas regiões de serra, principalmente onde tem vegetação. Esse solo, por ter muita matéria orgânica, ele se torna mais poroso. É uma terra mais fofa”, afirma Mendes.
A experiência começa e um chuveirinho simula a chuva.
“Nessa época de verão, chove praticamente todo dia. Então, o solo já está saturado, já tem muita água. De repente vem aquela chuva muito forte. Então, o solo não comporta. A água vai aliviar a pressão interna que existe dentro do solo e ele vai escorrer, como se fosse um líquido mesmo. É possível observar que a água começa a criar caminhos. Ela encontra esse solo descoberto, vai ganhando velocidade também, e isso pode agravar a situação. Por exemplo, em um ponto da maquete a encosta fica mais inclinada ainda, por causa dessa água que está correndo”, aponta o geólogo.
Uma casa da maquete cai. “Por causa da erosão”, explica Mendes. Ou seja, isso é algo que pode acontecer no Rio, porque as chuvas não estão parando na Região Serrana. E um alerta do geólogo: as casas que ficam na beira do barranco formado com o deslizamento também estão com o risco alto.
No resultado final, a situação é, de fato, muito parecida com o que aconteceu na Região Serrana do Rio de Janeiro. Só que lá tem um agravante: as casas não são leves como as da maquete. Portanto elas não bóiam, elas afundam.
“O deslizamento, ele ocorre, a gente sabe os fatores. O absurdo é que pessoas morram com isso, porque são fatores que a gente conhece. Não é um terremoto, não é um furacão, não é uma coisa difícil de prever. O ideal é não ocupar. Se já está ocupado, remanejar, se não consegue remanejar, monitorar. Choveu a partir de um limite que eles sabem que começa a ficar perigoso, dá um alarme: ‘Vamos evacuar’”, esclarece Mendes.
Em Cubatão, a 45 quilômetros de São Paulo, a cidade cresceu junto a Serra do Mar, a mesma cadeia de montanhas onde ficam os municípios do Rio devastados pelas chuvas. Então, aquilo foi visto no laboratório, em uma simulação, agora é possível ver como acontece na realidade.
“As vertentes e encostas são de alta inclinação e já, em si, trazem uma instabilidade muito grande. Os escorregamentos são parte integrante e natural da Serra do Mar. A Serra do Mar não precisa do homem para ter escorregamento. A ação do homem mexendo com essas áreas tão instáveis - desmatando, cortando, fazendo aterros, lixões, fossas de infiltração - potencializa toda essa instabilidade e pela presença humana torna essa instabilidade trágica, porque o escorregamento ou vários escorregamentos têm, infelizmente, a propriedade de soterrar pessoas”, explica o geólogo Álvaro Rodrigues dos Santos.
“As casas ficam praticamente penduradas na encosta. Todo o esgotamento de água, de drenagem, de água de chuva, saturando o solo, traz uma possibilidade de ocorrer o escorregamento. Um escorregamento nessa situação derruba uma casa e atinge outra residência”, avalia o geólogo.
A casa onde moram o encanador Raimundo, a mulher dele e três filhos. “Quando está assim chovendo a gente fica em alerta. Não tem como dormir tranquilo”, conta.
Os escorregamentos da Serra do Mar acontecem há 60 milhões de anos, e vão continuar acontecendo. Para o geólogo, a alternativa mais viável e econômica é retirar as famílias que vivem em áreas de risco. Pelo menos em tese, até seria possível fazer grandes obras de contenção. Mas por um preço astronômico e sem garantia de dar certo.
“Em se tratando de Serra do Mar nem isso pode lhe assegurar a segurança desejada pra comportar a presença da população”, explica o geólogo Álvaro Rodrigues dos Santos.
De acordo com o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), as tempestades que castigaram a região de Teresópolis, Nova Friburgo e Petrópolis fazem parte de um fenômeno que acontece todos os verões. É a chamada zona de convergência do Atlântico Sul. A zona de convergência carrega um corredor de umidade desde o sul da Amazônia até o Sudeste, onde as áreas montanhosas favorecem os temporais.
“A Região Serrana, ela tem a característica de fazer com que o ar que está mais embaixo suba pelas suas paredes, com isso as nuvens se desenvolvem provocando ainda mais chuva”, explica o meteorologista.
Uma chuva intensa, contínua, com força suficiente para varrer a fina camada de terra que cobre as rochas das montanhas e transformar simples riachos em cabeças d'água devastadoras. O repórter Álvaro Pereira Júnior foi ao laboratório de geologia da Universidade de São Paulo para ver como a ciência explica o que aconteceu.
O geólogo do laboratório de sedimentologia da USP, Vinícius Mendes, fez uma simulação do que seria um terreno de encosta, em uma região de serras como no Rio de Janeiro. A rocha foi simulada por uma placa de vidro na maquete e, acima dela, foi colocada uma camada de solo.
Para simulação ser a mais real possível, esta não é uma terra qualquer. “É um solo comum de se encontrar nessas regiões de serra, principalmente onde tem vegetação. Esse solo, por ter muita matéria orgânica, ele se torna mais poroso. É uma terra mais fofa”, afirma Mendes.
A experiência começa e um chuveirinho simula a chuva.
“Nessa época de verão, chove praticamente todo dia. Então, o solo já está saturado, já tem muita água. De repente vem aquela chuva muito forte. Então, o solo não comporta. A água vai aliviar a pressão interna que existe dentro do solo e ele vai escorrer, como se fosse um líquido mesmo. É possível observar que a água começa a criar caminhos. Ela encontra esse solo descoberto, vai ganhando velocidade também, e isso pode agravar a situação. Por exemplo, em um ponto da maquete a encosta fica mais inclinada ainda, por causa dessa água que está correndo”, aponta o geólogo.
Uma casa da maquete cai. “Por causa da erosão”, explica Mendes. Ou seja, isso é algo que pode acontecer no Rio, porque as chuvas não estão parando na Região Serrana. E um alerta do geólogo: as casas que ficam na beira do barranco formado com o deslizamento também estão com o risco alto.
No resultado final, a situação é, de fato, muito parecida com o que aconteceu na Região Serrana do Rio de Janeiro. Só que lá tem um agravante: as casas não são leves como as da maquete. Portanto elas não bóiam, elas afundam.
“O deslizamento, ele ocorre, a gente sabe os fatores. O absurdo é que pessoas morram com isso, porque são fatores que a gente conhece. Não é um terremoto, não é um furacão, não é uma coisa difícil de prever. O ideal é não ocupar. Se já está ocupado, remanejar, se não consegue remanejar, monitorar. Choveu a partir de um limite que eles sabem que começa a ficar perigoso, dá um alarme: ‘Vamos evacuar’”, esclarece Mendes.
Em Cubatão, a 45 quilômetros de São Paulo, a cidade cresceu junto a Serra do Mar, a mesma cadeia de montanhas onde ficam os municípios do Rio devastados pelas chuvas. Então, aquilo foi visto no laboratório, em uma simulação, agora é possível ver como acontece na realidade.
“As vertentes e encostas são de alta inclinação e já, em si, trazem uma instabilidade muito grande. Os escorregamentos são parte integrante e natural da Serra do Mar. A Serra do Mar não precisa do homem para ter escorregamento. A ação do homem mexendo com essas áreas tão instáveis - desmatando, cortando, fazendo aterros, lixões, fossas de infiltração - potencializa toda essa instabilidade e pela presença humana torna essa instabilidade trágica, porque o escorregamento ou vários escorregamentos têm, infelizmente, a propriedade de soterrar pessoas”, explica o geólogo Álvaro Rodrigues dos Santos.
“As casas ficam praticamente penduradas na encosta. Todo o esgotamento de água, de drenagem, de água de chuva, saturando o solo, traz uma possibilidade de ocorrer o escorregamento. Um escorregamento nessa situação derruba uma casa e atinge outra residência”, avalia o geólogo.
A casa onde moram o encanador Raimundo, a mulher dele e três filhos. “Quando está assim chovendo a gente fica em alerta. Não tem como dormir tranquilo”, conta.
Os escorregamentos da Serra do Mar acontecem há 60 milhões de anos, e vão continuar acontecendo. Para o geólogo, a alternativa mais viável e econômica é retirar as famílias que vivem em áreas de risco. Pelo menos em tese, até seria possível fazer grandes obras de contenção. Mas por um preço astronômico e sem garantia de dar certo.
“Em se tratando de Serra do Mar nem isso pode lhe assegurar a segurança desejada pra comportar a presença da população”, explica o geólogo Álvaro Rodrigues dos Santos.


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